23 de mai de 2016

Hoje o dia está para a escrita



Hoje o dia está para a escrita. Mais cedo, comecei o dia criando uma metáfora com os últimos seis meses que me restam antes de entrar no famigerado Retorno de Saturno. Sempre ouvi as pessoas falarem do fenômeno, acompanhei histórias e mudanças acontecerem em frente aos meus olhos, vi gente dar uma guinada na vida bem aos 29; eu, porém, acredito que meu Saturno se adiantou um pouco e já começou lá nos 27. Que ano foi aquele, cheio de mudanças e decisões frívolas. Com apostas erradas e tiros às cegas, com tropeços e erros. Os resultados amarraram o começo dos 28, espantoso e crucial pra definição do meu eu. Uma adaptação brusca de vida, novos rumos, pessoas e um aprendizado inédito, forçado e necessário. Deixei o cigarro, diminui a bebida, acertei as finanças e enterrei tudo aquilo que sabia sobre mim para dar espaço às novas oportunidades, sensações e motivações. Deixei manias de lado para aprender, de novo, a engatinhar a vida. Ainda ando de quatro, com a cabeça pesada, olheiras na cara e as costas já pedindo calma; não é fácil esse Retorno, muito menos o que ele traz de tapas na cara.

Então, após uma lancinante dor na cabeça durante toda a tarde, resolvi deixar a academia de lado (mesmo sabendo que a minha saúde precisa cada vez mais dos exercícios, hoje não tão puxados e sem o mesmo objetivo de ontem) para espairecer com quem gosto de rir; de viver. Escolhas certeiras que fazem os 12º da cidade ganharem sorrisos quentes. Com um olho na televisão, gorduras postas à mesa e muito, muito trabalho a ser feito, o papo fluiu com delicadeza. E são momentos como esses que fazem as mãos sair do chão e simular um passo bípede, como que em construção de um novo movimento, até então meio indescritível. 

Mas o clima frio, cortante, fez o riso murchar e, mesmo o dia pedindo a escrita, entendi que eu não sei analisar as pessoas. Na escola, a professora pedia uma análise física e morfológica dos personagens da obra. Eu escrevia como ninguém - fisicamente, era o que o autor havia me dito; psicologicamente, era o que minha cabeça queria fazer daquele personagem. Desenhava, ilustrava. Comprava a professora com detalhes pequenos, que me garantiam o 10 no final da aula. Eu sempre fui de fazer análises, de conhecer pessoas a fundo, de prever decisões, de saber e entender sentimentos. Sempre gostei de descobrir manias, esmiuçar personalidades. 

É complicado se relacionar com pessoas. Quanto mais a gente acha que sabe, mais a gente se engana. Aos poucos, bem lentamente, percebo o quanto somos egocêntricos e fechados. Não gostamos de ouvir a opinião dos outros, porque somos parte da razão. Não queremos aceitar o erro, porque fomos criados mirando o acerto. Não aceitamos o orgulho alheio, porque nascemos para ser perfeitos. Uma pessoa, por si, tem inúmeros defeitos – e, imagino, ninguém consegue se entender por inteiro. Talvez com o avanço dos anos a gente entenda. Assuma alguns erros. Mas a gente nunca agradece, nunca entendemos os problemas, os anseios, os receios. A gente é o centro, e o resto, na metáfora do sistema em que vivemos, orbitam pelo grande astro. Todos dependem da gente, e "a gente" é o ser perfeito. 

Talvez, por isso, eu ande encantado com Grace & Frankie (seriado que você deveria assistir). São pequenas lições de vida que somente alguém de 70 anos de idade poderia passar para um cara de quase 30. Aprendizados que valem uma vida e que, graças a Deus, não vou precisar viver mais 40 para entender. Coisas simples, básicas, que são tão esdrúxulas que deixamos passar com o vento, mas que marcam pra sempre alguns momentos. Em resumo, a importância da vida. De cada uma das vidas. E como a gente, em geral, esquece. Esquece que, ali, sentado ao lado, existe uma fagulha brilhante, em faísca, que às vezes está fraca, ora está em brasa. Existe vida, com anseios, desejos e provocações. Com ideias e loucuras, com as mesmas intenções. A gente xinga a Presidenta, ignora o amigo, passa reto por um desconhecido, com fones de ouvido. E a gente esquece que, não importa o cargo, a religião ou o dinheiro, no fundo, todo mundo tem um coração batendo. 

Talvez eu esteja desistindo de entender e descobrir as pessoas porque, a cada passo contente, elas esquecem dessa partícula aqui, também incandescente.

Um comentário:

Almofadinhas disse...

Os 30 estão um pouco mais longe pra mim do que pra você, mas ainda assim consegui sentir parte do que você quis dizer nesse post e tudo me tocou de um jeito tão peculiar que senti até mesmo um pequeno arrepio. Que o retorno de saturno seja tão fantástico quanto possa ser, só perpetuando o que de melhor já retornou, ou já existe antes do início dele. Se tiver a sua energia. Ele vai ser.