12 de nov de 2013

sandy



“cachorros vivem menos que seres humanos porque eles já nascem sabendo amar”, me disse um amigo ontem. fui dormir com o coração acelerado, dolorido e estraçalhado. com o sono, a triste certeza que assombrava nossa casa. chegara a hora dela. 

já tive uma cachorra quando pequeno. Xuxa, uma cocker bege. espevitada, feliz. Xuxa não era nada parecida com sua homônima, já que, ao que me lembro, ela já bem mordeu a orelha da minha irmã um dia e, noutro, apareceu com um rato na boca no quintal de casa. quando me mudei para um apartamento, tivemos que deixar Xuxa na casa da minha avó. tudo bem: eu sabia onde ela estava. 

no meio do caminho, aos 10 anos de idade, resolvi que queria um cachorro novo. era janeiro, fomos até uma casa buscar um poodle. uma outra fêmea. chegamos e, em segundos, uma cachorra andou em direção ao pé da minha mãe. com 35 dias de vida, ela nos escolheu sem a gente ao menos vê-la. veio para casa em uma pequena caixa de sapato. “parece um rato”, disse meu pai.

Xuxa morreu anos depois.

Sandy. Não dê risada pelos nomes de minhas cachorras. Todos foram escolhidos por mim. Sandy era pequena, de cabelos brancos e encaracolados, de olhar sagaz, que corria parecendo um coelho, que amava um biscoito, uma picanha e chocolate. eu teria como, facilmente, escrever os meus 16 anos ao lado dessa cachorra. quando perdi a primeira, a dor não foi grande. eu era pequeno, o que é o amor? 

hoje cedo, depois de mais de um ano de luta, tivemos que dizer adeus para Sandy. Depois de uma noite praticamente em claro, quase imóvel, resolvemos que era a hora de acabar com o seu sofrimento. não há como dizer que ela não lutou. essa foi forte e guerreira, assim como seus entes. meu avô que, veja bem, completa 10 anos de falecimento na próxima sexta-feira, é o homem mais forte do mundo que já conheci. sandy é a cachorra mais forte do mundo que eu já acolhi. 

entre uma lambida e outra, uma lágrima e outra, a hora do adeus é, no mínimo, dilacerante. praticamente é arrancar o coração do seu peito, cortar em mil pedaços e tentar colá-lo com uma cola que já não funciona mais. escolher a morte a um animal, mesmo que você tem 100% de certeza que é a melhor opção que existe naquele momento, é enlouquecedor. Assistimos, Paty, minha irmã, Sandra, minha mãe, aos prantos e pedindo perdão pela decisão, que era a única a ser feita, e eu, Sandy morrer. 

o choro caí. não existe formas de segurar. fomos embora, sem Sandy nos braços, dessa vez. a sensação é de perder metade de si, de perder a casa, a cama, o ar – mesmo, repito, todos sabendo que esse dia estava mais do que próximo. 

escrevo não por desabafo, mas sim porque, no céu dos cachorros, alguém irá interpretar esse texto para Sandy, meu amor. por todas as festas que ela fez quando chegávamos em casa, por todas as risadas que demos por causa dela, pelo seu estilo em roupinhas cor de rosa, pela sua pata levantada quando via um pé, pedindo um carinho na barriga.

é o amor mais puro (além do de mãe) que alguém pode ter.

descanse. descanse em paz. obrigado pelos 16 anos incríveis e inesquecíveis. a única certeza que fica é: sua vida foi incrível (e necessária e escreveu e mudou parte dos rumos da nossa família).


não é adeus, é obrigado.

3 comentários:

Unknown disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Eu sinto muito, Caio. Também tive que dizer Adeus a uma das minhas melhores amigas. Foi minha primeira grande perda na época pois no meu caso também foram 16 anos... eu sabia o que ela queria dizer com cada olhar. E ela sabia tudo sobre mim também. Se eu chorasse (e como adolescente fui mega chorona) ela ficava desesperada tentando me consolar.

Eu acho que ela preparou o caminho para a maior perda da minha vida—quando mamãe faleceu. Lógico que a dor de perder mamãe foi (e ainda é) bilhões de vezes maior. Mas o vazio—esse é bem parecido. Fique bem e obrigada pelo texto.

Sam disse...

Por trás de toda a vida noturna, e a moda, e os agitos, e as bebidas e a fama, voce é garotinho tam bom e fofo.