14 de out de 2009

O jogador de pontos

Quando menino, brincava e sonhava. Jogava com o vento, chorava na estrada. Sorria com o sol, se encantava com a amada. Como todos, foi crescendo lentamente. De vez em quando, a mente estacionava e o corpo espichava. Era uma correria danada para tentar entender. Novidades, mudanças, responsabilidades. Ainda menino, aprendeu a pontuar. Começava uma história, a vivia e colocava o seu ponto final. Sua vida fora um livro de crônicas. Abriam-na, lia um capítulo e ponto final, ali terminava uma história de criança.

Nunca deixou de pontuar, mesmo não gostando de jogar. Andava para lá e para cá aflito, roendo os dedos, comendo brigadeiro, escondido em seu paradeiro verde limão de quatro paredes. Sentava atrás da porta e sorria. Ouvia sua música preferida no último volume e cantava, acelerando e aumentando a voz a cada refrão. Duas vezes. Chorus. Atrás da porta também chorou, como sempre, suas lamúrias. Ficou doido. Passou por dificuldades. A porta era sua amiga. Ali, aquela madeira branca e sem vida. Era sua melhor amiga. Nela, espelhava e vivia. Dançava e pulava, fazia suas caras e bocas. Se enraiveceu. Xingou a porta. Ela ficou de lado. Era o sinal da nova fase, do outro capítulo. Ponto na crônica. Era uma vez.

Mais crescido, abandonou a imaginação. Pegou e sentiu o real em um tapa que, de soslaio, o assustou. Resolveu procurar e enxergar. Andou sozinho, de mãos abertas pelo vento. Zig, zag. Vrum. Voou com ele. Sentiu seu coração desacelerar, a tristeza chegar, o amor nascer, a doidera crescer. Já tinha lá os seus 18 quando descobriu a paixão, quando descobriu o tesão, caiu na tentação. Bebia sem parar. Sua nova amiga já estava lá. Resolveu parar. Tinha uma vida e uma história nova para formar. Jogou um ponto e foi feliz para uma nova aventura, que poderia ser grande, diferente e final.

A história começou pontuada. Foi toda errada. Indisciplinada. Sábia. Demorou anos demais para se formar. A ingenuidade batia à porta e dizia que era companheira e confortável. Abraçou a causa. Fechou os olhos para aquilo que o mundo jogava em sua cara. Rebatia, assustado. Acreditava nas pessoas. Uma astróloga pegou o menino em um bate papo desacredito. Narrou o seu nome de muitas letras. Contou sua idade. Refletiu e olhou assustada. "Você sabe o que te espera daqui pra frente, não sabe?". Com uma lágrima limpa escorrendo na face, enrubesceu, apoiado na mesa com o peito dilacerado. Era um novo tempo. Um tempo que não era seu. "Cuidado, garoto de roupa vermelha. Você tem um dom, não o jogue fora. Não o enterre". Pode deixar. "Seu erro vai ser confiar nas pessoas com facilidade demais". O menino já sabia. Já sofria. Já escondia. Era hora do ponto, mas este ele quis segurar.

Em devaneios de pesadelos, suores noturnos anunciavam o futuro mais que certo. Era tempo de sofrer sozinho. Era tempo de esquecer o orgulho. Era tempo de dividir. Nunca mais o garoto iria confiar em alguém. As vestes tristes diziam que ele seria esquecido e humilhado. Estava escrito. Ele sabia, porque ele podia ver. Ele via pessoas, ele ouvia conversas, ele fofocava assuntos, ele jogava o maduro. Foi de galho em galho que descobriu seu amor por um coração que, oh, se dizia destroçado. Acreditou. Começou errado. Hora do ponto? O desgraçado evitou. Queria saber seu futuro, mesmo que já escrito e lido.

Começou a jogar e a dançar a lambada da mentira. Jogou aqui, jogou acolá. Conversou com quem quis sem se mostrar. Descobriu verdades profundas, descobriu medos passados. De tempo em tempo, o ponto lhe voltava à mente, mas sempre fora esquecido. Esse último, tão importante, ficou imponente. E tudo foi passando. O garoto foi deslumbrando. A outra parte foi se mostrando. O mundo foi acabando. E é assim, no gerúndio mesmo, na vida andando, que ele descobriu que não podia mais controlar aquilo tudo. Era jeito. Era identidade. Era criação. Era falha. Era insegurança.

De novo, humilhado e sozinho, pegou lá do fundo a sua arma de pontos. Ameaçou. Guardou. Ouviu de novo. Pegou. Colocou. É o ponto mais presente, é o ponto sem final. É o ponto de uma história que nunca vai ter fim, porque a simples existência dele na vida do garoto da vidente interrompe. Mas não faz o seu trabalho. Não é o fim. É uma nova história, um novo caminho, um novo percurso. Com tudo mais claro, desconfiado, segue no trabalho. Quem sabe, assim, querendo ser amado, um dia não cai em um achado, desolado, querendo seu abraço. Chora no ombro a canção da vitória. É primavera e eu te amo. É verão e eu te odeio. É inverno e eu preciso. O garoto virou primeira pessoa, a história virou real. O livro saiu do forno, a verdade saiu escrita. De tudo um pouco, tornou-se o nada. E o garoto, esquecido com seu ponto que não termina, começou uma nova jornada.

Sentou atrás da porta desenhada. Chorou todas as suas mais doloridas lágrimas. Tomou o seu banho. Ouviu conversa fiada. Pediu desculpa à amada. A crônica teve o seu fim, de forma brusca e exata. Que as próximas durem menos, porque o coração, depois de tanta crônica em suas batidas, se acostuma. E adoece para o todo e sempre.

11 comentários:

pedro disse...

q lindo! muito lindo msmo! (L)

Cello disse...

ADOREI ESSE TEXTO. Assim como eu adoro você!

Cello disse...

Pq agora eu descobri seu blog e nao quero mais sair dele. Será pq ?

Candida disse...

coisa mais linda.

Marco Antonyo disse...

Ufa, perdi o fôlego.

Cello disse...

Eu perco o folego é pela pessoa que escreve o blog.

Null & Void disse...

eu nao consigo para de ler teu blog. parabens :}

Anônimo disse...

Anseio sempre por novos posts! tudo que vc escreve leva a uma visualização mental de como a vida por ser hora fantástica hora ingrata! Temos mto a agradecer por vc compartilhar suas palavras, seus pensamentos ou histórias...

Grande Abraço ^^

Dario Tavares disse...

"(...)porque o coração, depois de tanta crônica em suas batidas, se acostuma. E adoece para o todo e sempre."

pra isso um futuro médico cardiologista. ;)

Fictício disse...

nossa Caio, me emocionei com este texto... lindo mesmo ! posso roubar e postar nos meus blogs?? te adoro, vc é um FOFO !!

Igor disse...

Não canso de ler esse texto! =)
É realmente muito, muito bom! Parabéns, Caio. Admiro esse seu talento com as palavras! =)