2 de jun de 2009

O choro

De vez em quando, eu sinto vontade de chorar. Engraçado é que há algum tempo eu chorava por tudo. Assistia um filme e chorava. Via algo triste na rua e chorava. Levava uma bronca e chorava. Me machucava e chorava. Brigava e chorava. Era assim: algo ruim, chorava. Nunca soube se isso era um problema, mas "chorar" naqueles casos era uma forma de colocar para fora o que eu sentia, fosse dor, fosse tristeza, fosse alegria, fosse inveja.

Com o tempo, com os relacionamentos, com a idade, eu esqueci como se chora. Venho pensando nisso com frequencia, eu simplesmente tinha deixado de chorar pelas coisas bobas que a vida proporcionava. Por exemplo: no final da terceira temporada de The O.C., tocou "California" e eu comecei a chorar. Eu sabia que a Marissa iria morrer, então eu queria chorar. Eu fui chorando o episódio inteiro até que, no fim, quando o carro cai, eu desabei. Minha mãe veio no quarto ver o que acontecia, eu me debatia e soluçava. Foi uma cena cômica, se não trágica. Marissa ficou em meu coração por muito tempo. Eu revi a cena milhares de vezes e botei "Hallellujah" no iPod. Bastava ouvir a música pra eu chorar. Agora, em Gossip Girl, quando a (SPOILER) Blair finalmente fica com o Chuck, depois da cena mais romântica do mundo, eu senti uma vontade absurda de chorar, eu formiguei inteiro, mas simplesmente não saiu. Aí eu me preocupei.

Descobri que fiquei frio. Que esqueci deixar transparecer meu sentimento, seja ele bonito ou feio. Descobri que as relações da vida me fizeram ver que chorar nunca era a melhor solução, que isso era infantil. Descobri que, sem querer, eu me tornei aquela pessoa que, se sorri, ninguém sabe se é de verdade ou se é falsidade. Demorei um tempo para entender isso. Eu sou o cara que chorei com Stuart Little na oitava série e fui aloprado por um colégio inteiro. E então eu chorei de novo, mas de tanto rir.

Depois de muito tempo sem deixar uma lágrima cair, quando eu me tornei o cara mais rancoroso do mundo, depois de guardar tudo pra dentro de mim e não deixar ninguém ver nada, fui ao cinema e vi Divã. Sim, aquele brasileiro. Bastou para eu terminar o filme com os olhos inchados e descobrir que, ok, eu não desaprendi a chorar. Eu só não queria chorar porque eu realmente acreditei que isso era um sinal de fraqueza.

Deste dia em diante, no entanto, eu não consegui fazer nada novamente. Precisei de uma briga séria, um "não" bem dito na minha cara, uma sensação horrível de desprezo para sair tudo de novo. Eu - acredite, neste ponto, eu não queria - segurei, segurei. Pensei 'sou homem o bastante pra não chorar por isto'. Até que, sem querer, eu senti uma lágrima cair. Daí descobri que não era mais controlável, que meu corpo dizia por mim, sem eu pedir, o que eu estava sentindo. Percebi que chorei uma lágrima, senti ela escorrendo desde a saída do olho até amargar a boca. E então soltei. Soltei de uma vez. Veio aquele choro desesperador, aquele choro de perdão, aquele choro de medo, aquele choro de fúria, aquele choro de carinho. Ficou tudo escrito ali, na minha cara, o que eu sentia. Infelizmente, eu levantei e sai.

Então eu andei. Andei e pensei que eu tinha chorado de novo por alguém. Chorei por alguém que eu amava, mas que, assim como várias outras coisas da minha vida, eu comecei a esconder. A partir do momento que eu decidi esconder os meus sentimentos não chorando mais, eu percebi que escondi todo o resto. Eu simplesmente escondi quem eu sou. Ali, aquelas lágrimas malditas e salgadas me entregavam; eram elas que definiam o Caio, a essência carente e manhosa do Caio. Eu engoli as malditas muitas vezes, mas elas são mais fortes que a minha própria vontade.

De novo, na rua, dei meia volta e tomei um vento na cara. Aí, o que veio no vento, foi bonito. O vento sempre traz ares novos, sempre traz esperança, sempre traz perspectivas e vontades. Sei que é só um vento, mas talvez foi o vento do 'acorda, Caio. Acorda que o mundo é teu' que alguém quis mandar pra mim. Acordei, me redimi, voltei. Deixei o choro cair mais um pouco, solucei, dei risada pela situação, pela minha cabeça, pela minha loucura.

Depois disso, chorei no sábado, no meio de uma entrevista. Chorei no sábado, à noite, sozinho em casa, pensando nas minhas tarefas do dia seguinte. Chorei no domingo, após voltar da casa da minha avó e pensar sobre o almoço que ela me fez. Chorei na noite do domingo, por pensar que eu ia ficar sozinho em casa e não ia cumprir a rotina que havia criado para os domingos à noite, que matava com aquela angústia típica de.. erm, domingo à noite. Chorei na segunda-feira, na faculdade, no banheiro, por uma briga com o grupo de TCC que nem me envolvia. Chorei na segunda, em casa, quando não me senti querido. Chorei na terça, no serviço, por ficar sozinho na bancada e por me preocupar com uma amiga.

Pode dizer, eu sou um chorão de primeira linha. Não me orgulhava de dizer isso, eu não gosto de chorar 'por nada'. Mas eu gosto de chorar. Gosto de chorar porque chorar, pra mim, é um processo de desabafo individual. E, desculpem-me, ninguém faz igual.

3 comentários:

Lucas Soares disse...

Ano passado eu passei por uma situação como a tua. Passei meses sem chorar. Cheguei a pensar que eu realmente tinha desaprendido. Mas daí, quando veio, veio com tudo, veio daquela forma que até me assustou. Porque parece que chorei tudo o que estava reprimido. Tudo o que não chorara nos passados meses.

Chorar é bom, não é ruim não. Ainda mais quando o motivo do choro vale a pena.

Beijo.

medeiross disse...

Caraaaaaaaaaca, q texto fdp meu...
Foda.. Acho que o mundo está deixando a gente assim, frio... E acho que é cada vez mais, sabe? Difícil acreditar hj em dia em alguém, de confiar.. tá foda
beijos chorãozinho! :D

Aline disse...

Quer saber qual a sensação que tenho toda vez que leio o que você escreve? Que você é o cara que mais se entende, mas que é o cara que mais luta contra o que você é. Mas eu te amo mesmo assim e sinto falta de você todos os dias da minha vida.