6 de nov de 2008

Nego, não afirmo

Já fui melhor um dia. Aquela época crucial da minha vida, quando decidi a profissão e escolhi as mulheres com quem deveria ficar. O amor é para aqueles que são fracos e tem o coração mole, que caem por qualquer abraço afetuoso que recebem. Eu escolhi à todas que queria exatamente para evitar que esse tal sentimento vaidoso e rouba-vidas debatesse com a minha pessoa, com o meu estilo de vida. Eu não amo, eu sobrevivo.

Quando cheguei aos 12, esse tal amor apareceu para mim na forma loira, baixa, de olhos castanhos e delicada. Pena que aquilo que vemos por fora não conta em nada, na verdade. A moça era um monstro, daqueles que só destroem o coração alheio. Do meu, ela fez gato e sapato. Estraçalhou meu pobre e virgem coraçãozinho como se fosse alguma pedra inanimada que achara no chão do quintal. Trabalho sujo, eu achei. Chorei na frente dos colegas. Chorei na frente dos meus pais. Chorei na frente da professora. Chorei rios de lágrimas vermelhas que não mereciam cair do meu rosto. E então, pela primeira vez na vida, me senti derrotado pelo desconhecido, me vi apunhalado pelo abstrato.

Segui em frente, é claro, eu era jovem e a vida não podia parar. Então cheguei aos 15 e, com os hormônios enlouquecidos, fui atrás de outra fêmea, que tinha cabelos encaracolados e era gaga. Isso, falava meu nome como ninguém e me encantou de primeira. De novo, o destino me colocou uma pedra no sapato e a bonita, lânguida, mas esperta, me deu um ótimo presente de Natal: a amiga. Isso, me ofereceu a melhor amiga em troca do meu melhor amigo. Chorei o final de ano inteiro e esta foi a minha segunda decepção com o sentimento.

Depois se passaram muitos anos, eu iniciei a minha sexual e me descobri bom o bastante para ter quem eu quisesse. Então decidi não ter ninguém. Usaria todo mundo que chegasse à mim, sem ao menos recusar, mas não guardaria ninguém. E assim eu sobrevivi ao mundo cruel do amor. Deixei que todos entrassem na minha vida, mas não fiquei com ninguém dela. Uma pessoa só se torna inesquecível depois que passa mais de seis meses ao nosso lado. Eu passava no máximo seis horas com alguém. Fazia o meu serviço, me satisfazia e deitava a cabeça no travesseiro sem me preocupar com o sentimento alheio.

Acredito que o amor é desnecessário e não completa a felicidade. Na verdade, ele deve ser um sentimento criado pelo demônio para aterrorizar as pessoas, para maltratá-las, para humilhá-las. Existe gente fraca no mundo que ama loucamente e acredita no bem da humanidade. Quem se basear nisto, vai morrer infeliz e sozinho. Quem deixa a loucura entrar em casa, vai acabar feliz. Afinal de contas, é muito fácil ficar com as pessoas, difícil é tê-las. É disso que eu me privo. Não preciso ter ninguém, a minha essência já me basta.

Vou morrer sozinho e não tenho medo disso. Afinal, melhor sozinho do que mal acompanhado. E, se amo, é sinal de que estou mal acompanhado.

Um comentário:

Eduardo disse...

Que mal amado.