1 de set de 2008

Meu diário

Larguei ontem o meu diário. Pode não significar muita coisa para você, mas sabe, né? Largar o diário é uma transição gigante da fase de menina para a fase de mulher. Não que eu entenda muito bem isso, mas a minha mãe disse que eu já era uma mulherzinha. Até onde eu sei, minha mãe é uma mulher e ela já não tem mais diários. Tenho que seguir esse padrão. Eu já bem tenho os meus 14 anos, já conheci alguns lugares diferentes e já paquerei meninos. Não sou grande o suficiente para entrar em muitos filmes do cinema sozinha, não entendo muito bem o porquê, já que sou mulher. Difícil perceber essa diferença e se adaptar. Estou me perguntando e sofrerei muitas mudanças.

Mas quero falar do meu diário. Ele era a coisa mais legal que eu tinha. Todos os dias o meu celular, às 20h, tocava me lembrando que eu tinha que preencher aquelas páginas cor de rosa com alguma reclamação. Meu celular apita para outras coisas, também. Mas são menores, como as reuniões com as minhas amigas para falar do Diego, o moço bonito da escola, ou para me lembrar que eu tenho uma tarefa pra entregar amanhã na escola – sempre agendo pra um dia antes, daí levo maior susto. Enfim, de volta ao diário, é um hábito desde os seis anos, quando aprendi a escrever. Tenho vários cadernos diferentes guardados em uma caixa laranja (minha segunda cor favorita) com toda a minha história. Se alguém pegar isso um dia, quando eu for mais velha ou morrer e virar uma pessoa importante, esta pessoa vai descobrir a minha vida toda. Até ontem, agora as coisas mudaram.

Essa nova fase de mulherzinha requer muitas coisas de mim. Minha mãe, por exemplo, já até acabou a faculdade. Minha tia decidiu não fazer isso, daí ela fica em casa cuidando dos filhos. Eu ainda não sei o que vou querer, mas acho que tenho que decidir logo, pra começar a formar a minha família. O problema é que ainda não tenho nem um marido, nem escolhi ninguém, tenho que me apressar. As minhas bonecas já vão ser guardadas na caixa, acho que quando a gente cresce a gente não pode mais brincar com essas coisas de criança. Vou guardar, porque posso dar para a minha filha, quando tiver uma. Tenho que começar a procurar um emprego o mais rápido possível, assim eu posso começar a fazer as compras do mês.

É muita coisa pra organizar e eu acho que eu já não tenho muito tempo. Hoje, por exemplo, acabei de voltar da escola e já tenho que rever as minhas roupas, quero comprar uma saia longa, igual a que a minha tia usa quando ela vai trabalhar. Na escola, todas as meninas perguntaram o motivo de o meu cabelo estar em forma de coque. Eu disse que “a minha mãe tinha de ir trabalhar desta forma, então eu tinha que usar isso no meu trabalho – a escola”. Acho que elas ainda não passaram por essa transformação importante, de deixarem de serem meninas e se tornaram mulheres. Sei lá, as mães delas não devem ser tão mãezonas como a minha. A minha se preocupa comigo, de verdade.

Eu to escrevendo isso aqui numa folha de papel solta, já que não tenho mais o diário. Acho que vai ser difícil largar este hábito, não é? A gente faz essas coisas desde pequeno e do nada, de um dia pro outro, a gente tem que moldar a nossa vida de uma forma diferente. Bom, o que importa é que o primeiro passo eu já dei: acabei com o diário. Lá dentro ficou um pedaço de mim, uma lágrima vazia e um pedaço de saudade de uma vida que eu nunca mais terei. Nas novas páginas metafóricas da vida, não sei o que me espera. A única certeza agora é que não sou mais eu quem vou escrever em minhas linhas, sempre vou ganhar parênteses feitos pelos outros. Mas eu ainda não sei se é isso mesmo que eu quero agora...

4 comentários:

 Maria Fernanda disse...

Tu não leva muito jeito para ator, mas encarna a personagem e entende seus conflitos. Gênio! Me descreveu, com dezessete anos e meio, quando larguei o meu último diário roxo escuro.

O final do texto mostra a mudança também da forma de escrever da garota, né?

Faz meu template? HAHAHA!

kissu.

 Maria Fernanda disse...

Tu não leva muito jeito para ator, mas encarna a personagem e entende seus conflitos. Gênio! Me descreveu, com dezessete anos e meio, quando larguei o meu último diário roxo escuro.

O final do texto mostra a mudança também da forma de escrever da garota, né?

Faz meu template? HAHAHA!

kissu.

 Maria Fernanda disse...

Tu não leva muito jeito para ator, mas encarna a personagem e entende seus conflitos. Gênio! Me descreveu, com dezessete anos e meio, quando larguei o meu último diário roxo escuro.

O final do texto mostra a mudança também da forma de escrever da garota, né?

Faz meu template? HAHAHA!

kissu.

Roberta Poa Rs disse...

Sabe eu pensei em comentar ontem, mas resolvi não. Quem sou eu para te dizer para continuar... mas sabe vi que te incentivar te fez bem Mari Fernanda... então vi que estava errada e me arrependi, Caio beijos no teu rostinho bonitinho.