19 de ago de 2008

Sorte do tempo azarado

Peguei um cigarro. Ali, deitado naquela cama imensa, decidi perceber a vida. Caído em lamúria e abandonado por todos, senti o corpo só, trêmulo pelos momentos loucos que antecederam o pensamento. Pensamento o qual era vazio, mas longo, que me fez refletir. Ali, vi que a vida seguia talvez de forma seca, sozinha.

Deitado de lado, senti a dor da derrota queimar os meus órgãos. Vendi a alma, não para o capeta, mas para o capital. Posso ter sido mau, vulgar, desobediente. De um pouco, a vida havia valido a pena. Senti no sangue uma nova luta, uma esperança. Queria ser igual a todos, poder comprar, de novo, o meu ser, a minha essência, que havia se perdido nos mais longos trajetos dos meus passos.

Querido por todos, descobri que a falsidade é uma virtude do ser humano que me cerca. Queria eu poder mudar o mundo, mas eu só faço parte dele. Destas mãos, sinto a vontade compulsiva de julgamento. Eu só posso acreditar que, algum dia, ninguém mais será como eu.

Eu sei cobrar, eu sei deprimir, eu sou muito melhor do que todo o mundo. Mas ninguém pode saber disso. Na minha cara, estampo a imagem de um bom moço pronto para o que der e vier. Por dentro, eu sinto a fúria da discórdia fazer o meu coração bater mais forte – o meu pulso aumenta, a minha respiração se descontrola, o meu som ensurdece, os meus olhos dissimulam e devagam.

Se de tempo em tempo eu pudesse escrever o meu ser, diria que eu sou cíclico e mutável, que eu sou íntimo e público, que eu sou levado e leviano. Diria que eu não conseguiria me definir por qualquer adjetivo, não é possível me espelhar. Não há no mundo falsidade maior do que o meu corpo exala. Meu perfume é cínico, minhas palavras já não bastam.

Do abraço sincero, eu sinto uma pontada de raiva. Do beijo amoroso, eu sinto um gosto retrógado do passado. Da minha vida, eu não posso levar nada. Há quem disse que eu já tive razão um dia. Há quem apostou que eu não passaria dos 30. Hoje, mais velho, já com a reflexão da metáfora pronta, digo que cheguei nos 50 saudável e que deixei meio mundo para trás.

A culpa de eu ser horrível? O mundo. O ser mais próximo que se tornou um animal, o meu familiar mais amado que enlouqueceu na surdina, a minha história mais bonita que foi comida pelo tempo e desgosto. Eu me tornei frio porque o mundo foi frio comigo. Eu me tornei azedo por que o mundo não me deu o doce. Eu me tornei insuportável porque eu quis ser assim.

A gente molda a nossa vida como um vaso de barro é criado. A base, que deve ser grossa e forte para manter o resto da obra, é a adolescência que se passa sozinho e imaculado. O meio é a vida adulta, onde deixamos de pensar na gente para pensarmos no dinheiro. O topo é a velhice, idade em que nos tornamos inválidos, mas finalmente conseguimos chegar na liberdade e sair de toda a estrutura. As bordinhas são tortas, mas se até Deus escreveu sobre tais linhas, quisera um ser humano ser perfeito.

Pena perceber a vida quando ela já não mais vale a pena. Pena perceber os erros do passado quando ele já entrou na casa do imperfeito. Sorte errar e, no futuro, encarar a solidão como um pagamento de todo o crédito. Azar de, sozinho, nunca se ter razão.

3 comentários:

Anônimo disse...

De quem é o texto?

Caio Caprioli disse...

Meu =)
Pq?

Mandy disse...

adoro as coisas que vc escreve ^^