28 de mar de 2008

Adjetivos bem colocados, título na ordem direta dos fatos

Sou um desvirtuado, mal-amado, descabelado, revoltado, desinteressado, acabado. Da glória pulei para o buraco, sorri feito um palhaço, chorei igual a um condenado, abracei otários. Do luxo recorri ao fracasso, das plásticas, preferi o borralho. Das metáforas fugi pelas águas. Pelo ódio, amei o passado. Do amor, quis o exagerado.

Mal pago e desacreditado pela vida exposta em palavras pífias, longe e distante, querido e amante, fiz rios de lágrimas que desenharam lamúria no corpo abandonado do ser desejado. De graça, foi-se agora a cena que nos recriava.

Pela janela a luz que brilha e arde o fundo dos olhos. A lágrima que escorre para o andar debaixo, que leva a vontade, que arregaça a palavra, que puni o homem. Da força corrompida por cabos de aço, estraçalhado, no calor do teu abraço, um homem indesejado. Amado. Idolatrado. Era tudo, agora, passado.

Filho da puta que rouba a vida e não devolve – não tinha esse direito. Agora vai choramingar perdão, exigir explicação. Não! É tudo criação. Os cabelos levados pelo vento do sul indicam os atos falhos. A poesia perde a prosa e o poeta a estrutura. Adeus, papel antigo, acabou-se a tinta.

Com olhos cintilados e inchados, segue toda a imagem impressa e vivida. Por trás da câmera da memória, eis que se lança a dor pelos poros espelhados. Agora sorri, por falta de expressão, sem essência e nem mais o coração, para o mundo afora, que um dia o encantou, mas agora o ignora.

Um comentário:

biti disse...

adorei esse texto!