8 de jan de 2008

Marca mascarada

Num motel qualquer, por aí, na cidade grande. Oh, um convite particular. Cheiro de mofo, antigo, nada mais que poucos reais tirados do bolso em desespero. De olhos atentos, grandes, brilhantes, faltavam minutos. Clichê demais, aquele espelho em cima da cama redonda. Fotos, poses, risadas, abraços, beijos, carinho, falta. Embaixo dos panos o grande movimento, desconhecido o talvez que virou certeza, um beijo, minha querida, e nada mais.

Coração palpita, balbúrdia nos sentimentos, vontade, arrependimento. Anda, sonha, é pra sempre tua! Depois do tempo curto de sensaçãos inexplicáveis, sente-se na cama enquanto alguém se lava no banheiro ao lado. Foi mal, não deu. Na frente, outro espelho. Que imagem, que beleza. O corpo do rapaz nu, revestido pelo brilho do suor proporcionado pelos rápidos e passados movimentos, diferente, bonito, desejado. A garota já se foi, ficou ali sozinho, olhando-se pelo reflexo.

Caretas, expressões, longos sorrisos, poses. Adeus, já se deu o tempo. Agora é hora de se vestir, cobrir o peito depilado para aumentar o prazer do sexo oposto. Ainda sentado de frente à sua imagem, eis que surge o arrependimento, o desprezo, a cólera, o erro. Nada mais do que um monstro, tão copiado e reproduzido, nada mais do que um falso, um charlatão.

Ele resolveu deixá-la. Apagou os seus contatos, disse adeus pelos fios robóticos, foi-se, respirando novos ares, arrependido, humilhado. Sua mulher já estava com outro e ele sofria de amor. Sofria de ódio. Sofria de culpa. Dúbio, eita. Vai te catar, essa sua visão de que relacionamentos podem ser quebrados com certa exatidão, freqüência, compra-se nova liberdade, diga adeus às saudades; agora já foi. O erro do laço criado foi pensar que ele podia, ao mais rápido e fugaz dos momentos, ser quebrado e recuperado, mole mole, fácil.

O que se rasga, mesmo que por melhor costurado, na vida real, deixa a marca. Está ali, por mais invisível, mais revestida, mais disfarçada que seja, debaixo de tantos outros panos, rasgada, estraçalhada, lembrada, sensível, sólida.

Um comentário:

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