25 de out de 2007

Creme anti-sinais

Comprei um creme novo que é anti-sinais. A fórmula é daquelas bem complexas, mas a moça disse que meu rosto, beirando os 20 anos, ia ficar com a aparência de bunda de nenê – nesse momento, pensei em devolver, mas ela me convenceu que foi uma metáfora infeliz. Ah, esse creme novo passou ontem na televisão, me encantei com a propaganda e a jovem que a ilustra, uma moça morena, de boa família, cabelos sedosos e pele macia. Lembrei-me de um pêssego, mas já não tinha frutas em casa. Fiquei com o chocolate.

Na rua, todos olhavam para minhas mãos. Aquelas duas palmas esticadas em direção ao Sol brilhante com o meu creme milagroso creme anti-sinais em cima, criando um reflexo interessante em meus óculos que, mais tarde, virariam fotografias. Meu creme demorou para ser feito, é lançamento, ninguém o tem, acabei de sair das Lojas Americanas com uma sacola anunciando meu mais novo luxo: o creme anti-sinais, que mentiria a minha idade e faria meu rosto ter expressões mais joviais. O creme foi caro, sim, mas o cartão de crédito conseguiu financiar em quatro prestações sem juros de aproximadamente 43 reis – para isso, tive de ignorar a ligação da gerente de meu banco de tarde, lembrando-me, como quem não quer nada, do meu saldo devedor. Não importava, com meu creme anti-sinais, tudo iria se resolver. Até um cara rico eu ia encontrar, ele ia pagar as minhas dívidas e me fazer feliz. Assim poderia comprar outros cremes anti-idade, mais caros, para quando eu ficasse mais velha.

Atravessei, cheguei à porta de casa e estendi as chaves. Abri, entrei, coloquei meu creme anti-sinais acima do criado mudo. Logo corri para o banho, assim meus poros ficariam limpos e abertos, esperando a ação da novidade estética que iria preencher e revigorar, de maneira relaxante, cada parte do meu lindo e estressado rosto. Lavei, esfoliei, enxuguei e corri para ficar de frente ao espelho. Aí me veio o susto e um balde d’água de realidade. Eu era nova demais para um creme anti-sinais. Aquilo não teria efeito em mim, minha pele era lisa e sedosa, um pouco oleosa, mas nada que outro creme barato não resolveria.

Percebi, então, que meu creme anti-sinais iria para as mãos de alguém que realmente precisava dele. Para eu, encomendei uma boa barra de chocolate e um delicioso vinho tinto, bem doce, para esquentar um pouco o corpo e o coração. O preço que paguei pelo creme anti-sinais valeu a pena, sim. Afinal das contas, foi ele que me fez perceber que o que eu realmente preciso é bem mais barato e fácil de se conseguir, e não há sinais que indicam isso...

Um comentário:

kinha disse...

Ai meu pai do céu ¬¬'
nem eu seria capaz de uma dessas...